Nem são, nem santos

Samelly Xavier



Meus amigos eu não os tenho
Eles me são emprestados pelos deuses
Em momentos como este
Em que prevalece o sentimento

Meus amigos eu não os conheço
Eu os percebo num olhar ou num aperto de mão
Que soe piegas, então!
Mas amizade não se mede fim nem começo

Meus amigos eu não os faço
Eles me fazem.
Conhecedores de meus choros
São sorrisos sempre tenazes

Meus amigos eu não os cumprimento
Eu os reverencio e eles a mim
E quando precisamos, dizemos sim
Para os abraços e alentos

Meus amigos eu não os vejo
Eu os vislumbro
Se estão felizes ou taciturnos
Eu saberei em meus anseios

Meus amigos eu não os conto
Eles me contam
E confessam o que aprontam
Às vezes, em silêncio de pranto.

Meus amigos eu não os chamo
Nos vimos uma vez por ano ou em horas marcadas
Conquistas são sempre comemoradas
Pela intransitividade do “eu amo”

Meus amigos eu não os engrandeço
Eles são neuróticos, problemáticos
Cheios de vida, nunca apáticos
São meio “eu” ou como mereço

Meus amigos nem são meus
São do acaso, do ocaso
São casos de amor para a vida inteira
São apenas brincadeira
Da criança que por ventura, perpetua

 

Retirado do livro "Universo, o verso une" (RG Editora, 2005)
Direitos reservados à autora.

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