NAMORADOS NO MIRANTE

Vinícius de Moraes

 

 

Eles eram mais que antigos que o silêncio
A perscrutar-se intimamente em sonhos
Tal como duas súbitas estátuas
Em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
Os seus corpos sem tempo em pura cinza.
Renovavam às origens _ a realidade
neles se fez, de substância imagem.
Dela a face fria, a que o desejo.
Dela a face fria, a que o desejo
Como um hictus, houvesse adormecido
Dele apenas restava o eterno grito
Da espécie _ tudo mais tinha morrido.
Caiam lentamente na voragem
Como duas estrelas que gravitam
Juntas para, depois, num grande abraço
Rolarem pelo espaço e se perderem
Transformadas na magma incandescente
Que milênios mais tarde explode em amor
E de matéria reproduz o tempo
Nas galáxias da vida no infinito.
   Eles eram mais antigos que o silêncio...

 

 

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