Estamos comemorando o bicentenário do dinamarquês Hans Christian Andersen. Nada mais oportuno do que lembrar a inspiração que me passou em:

POESIA DE NATAL

José B. Costa
(Professor Zuzú)

A época sugere.

Diante dos olhos, tenho Andersen, o mais poeta dos poetas infantis. A gravura me alumia a fantasia : diviso, no fundo azulado, a menina que risca um fósforo – tch! e sonha chiante braseiro enfeitado de bolas de cobre. O recanto lhe aquece a alma. Tem vontade de esquentar os pés descalços, perdidos no gelo da neve, no vento sibilante. De pronto estão onde as mãozinhas roxas, mas a chama do fósforo apaga.

Foi gostoso aquele primeiro alumbramento. A caixa está repleta de fósforos para serem vendidos. Não agüenta: apanha o segundo e... tch! – agora são paredes perdendo dimensão. Ela se torna dona de uma sala de finas porcelanas em cujo centro recende um pato recheado, envolvido em castanhas e maçãs. O pato dói-lhe no estômago.

Outra vez a realidade desconcer-tante. É preciso sonhar, sonhar sempre. Com os dedos entorpecidos, acende a árvore de Natal, acende centenas de velas faiscantes, figuras de cores mil, animadas, sorridentes. Acende as velas mais altas que se libertam da árvore e se confundem com as estrelas do céu. Lembram vovó. (Que saudades de minha vó!). Vovó dizia: “Estrela que corre carrega alma para o outro mundo”.

E a menina segura a ponta de mais um fósforo apagado. Em extremo esforço, cortada de frio, ateia novo lume, e vê, vê a avó sem fome nem frio, gorda de paz celestial. “Vovó, não vá embora!” Desesperada, risca uma car-reira de fósforo, o último. Maravilha! A escuridão se esfrangalha em radioso dia! A vovó chega mais perto, envolve-a num abraço morno e sobem, etéreas, navegando nuvens, num aconchego doce a mais não poder.

Neste Natal, vejo, em cada um de nós, a vendedora de fósforos.

Cansados, encaramujados em mi-seráveis limitações, erguemo-nos do chão e acendemos, aqui e ali, esperanças pueris.

O Menino, porém, assiste por perto, convida-nos à simplicidade do presépio, para, quando soar o momento, deixar-nos transportar despojados,  nesse caminho de Deus, para além das estrelas.

 



Voltar para Index     Recomende a alguém



Atualizado em 13 de agosto de 2005